A rede americana Marriott, uma das maiores do setor hoteleiro no mundo, quer alterar a visão de que o luxo precisa custar caro. Para isso, a dona de alguns dos mais caros hotéis cinco estrelas do Brasil, como o tradicional Renaissance, na região da Avenida Paulista, em São Paulo, cuja diária na suíte presidencial chega a R$ 50 mil, está colocando a mão no bolso. A empresa investe, atualmente, R$ 400 milhões na abertura de 11 novos hotéis no Brasil, que se somarão aos 3,7 mil estabelecimentos espalhados pelo planeta, responsáveis por um faturamento de US$ 14 bilhões.

O aporte quase triplicará o número de hotéis da rede no País, atualmente em seis. Para provar que sofisticação não significa ostentação, a empresa tem um alvo em específico: a geração Y, formada por jovens que nasceram entre 1980 e 2000. O foco na juventude é novidade para a Marriott no Brasil. A maior parte dos clientes de seus hotéis são empresários e executivos estrangeiros. Para mudar essa situação, o grupo trará ao País uma de suas principais bandeiras, a AC. Trata-se de uma joint venture entre a própria Marriott e a espanhola AC Hotels.

O objetivo, segundo Tim Sheldon, presidente da rede na América Latina, é conquistar os brasileiros de 25 a 40 anos com o seu estilo mais descolado. “Queremos que a geração Y venha e aproveite todos os serviços dos nossos hotéis”, diz Sheldon, enquanto preparava uma caipirinha. “É claro que pesquisamos para fazer tudo do jeito que o brasileiro mais gosta.” Até 2017, serão três novas aberturas com a marca AC, duas no Rio de Janeiro, para atender a demanda da Olimpíada de 2016, e uma em Florianópolis.

Para agradar os brasileiros, o executivo americano se inspira na experiência do próprio AC Hotels. O espanhol Antonio Catalan, fundador da rede, costuma dizer que um hotel tem a oportunidade de ser algo melhor do que a casa do cliente. Por isso, todos os estabelecimentos são desenhados de acordo com as vontades da geração Y, mas sem perder o requinte. Os lobbies, por exemplo, são inspirados em escritórios de muitas startups, com lugares abertos e móveis compartilhados. A ideia é de que as tradicionalmente tediosas recepções se transformem em fonte de criatividade dos executivos durante o dia, além de um reduto social à noite, com serviços como bares, teatros e cafés.

“Esse público quer ter um local para socializar depois do trabalho”, afirma Guilherme Cesari, vice-presidente de desenvolvimento da Marriott no Brasil. “E o design do AC faz com que um hotel quatro estrelas se pareça com um de cinco.” Todos os serviços, de pedidos de alimentos e bebidas a travesseiros e camareiras, podem ser solicitados por meio de um aplicativo para celular. As diárias custarão até R$ 800.

A estratégia do AC visa também diminuir a força do Airbnb, portal americano de locações de imóveis, entre os jovens. “O público de 20 a 30 anos já ganha bem e é extremamente exigente quanto aos serviços hoteleiros”, afirma Lucila Quintino, sócia da Hotel Consult. “Isso exige uma abordagem diferenciada e inovadora, como a ambientação e os restaurantes do hotel.” A empresa também construirá hotéis destinados aos clientes de alto padrão.

Os principais deles são o da bandeira Marriott, de cinco estrelas, que será instalado em Recife, e o Residence Inn, no Rio de Janeiro, voltado para executivos que terão longa estada em determinada região. O Courtyard, que já existe na capital pernambucana e possui quatro estrelas, também terá uma unidade. Metade dos investimentos está sendo destinada ao Rio de Janeiro, segundo Sheldon. O restante será dividido em empreendimentos espalhados por Pernambuco, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

As cidades de Porto Alegre, Recife, Curitiba e a catarinense São José receberão a Fairfield, bandeira econômica do grupo, mas também direcionada para o segmento corporativo. A ideia é aproveitar o atual momento de dificuldades econômicas para fincar de vez as bandeiras da Marriott, que, até aqui, tinha uma participação incipiente no Brasil. “Eles vêm com um plano de longo prazo”, afirma José Ernesto Marino, presidente da consultoria BSH International, especializada no setor. “Em um cenário de crise, a empresa sabe que não vai gastar mais do que precisa.”